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Do Vazio do Cerrado à Potência do Agro: A Saga Heroica e o Crescimento Explosivo de Querência (MT)

Publicada em: 03/06/2026 16:17 -

No coração do Brasil, onde o Cerrado se encontra com os limites da Floresta Amazônica, uma revolução silenciosa e veloz reconfigura o mapa socioeconômico de Mato Grosso. O município de Querência, com pouco mais de 31 mil habitantes, deixou de ser apenas um ponto isolado no Vale do Araguaia para se consolidar como uma das fronteiras mais dinâmicas e promissoras do agronegócio brasileiro.

​Os dados impressionam: segundo o Censo do IBGE, Querência foi a cidade que registrou a maior taxa de crescimento populacional e econômico no estado de Mato Grosso, figurando como a 6ª que mais cresceu em todo o território nacional. E as projeções são ainda mais audaciosas. De acordo com o prefeito Gilmar Reinoldo Wentz, mantendo o ritmo atual, o município deverá alcançar em breve o posto de terceira maior economia da região do Araguaia, superando polos tradicionais em relevância e atração de investimentos.

​O Triângulo de Ouro: Milho, Soja e Algodão

​O motor que impulsiona esse fenômeno é a terra. A produção agrícola local é marcada pela alta tecnologia e pela diversidade de culturas. Imensas colheitadeiras cortam os campos em um balé sincronizado, colhendo toneladas de soja e milho que abastecem os mercados nacional e internacional. Mais recentemente, o algodão também passou a pintar a paisagem de branco, somando-se à forte presença da pecuária de corte, que movimenta frigoríficos e cadeias logísticas na região.

​No entanto, o diferencial de Querência reside na sua capacidade de alinhar a expansão agressiva do agro com a sustentabilidade. Vizinha ao Parque Nacional do Xingu, a cidade cresce cercada por rigorosas áreas de preservação ambiental. "O clima daqui é privilegiado pela proximidade com a mata, o que garante uma regularidade de chuvas essencial para o sucesso das safras", explica Osmar Frizzo, presidente do Sindicato Rural de Querência.

​Esse ecossistema favorável tem atraído gigantes da indústria, como a FS Bioenergia, abrindo novas fronteiras econômicas e abrindo espaço para futuras cadeias produtivas, como a avicultura e a suinocultura.
                                                                               

Querência se consolidou como exemplo de sucesso em Mato Grosso

​Sangue Pioneiro: Das Dificuldades ao Triunfo

​A Querência moderna, planejada e arborizada, com avenidas largas e estruturas urbanas que remetem ao Sul do país, esconde um passado de poeira, isolamento e sacrifício. A história da cidade começou com um audacioso projeto de colonização idealizado pela Cooperativa Mista Canarana (Copercana), liderada por Norberto Schwantes. Sabendo da existência de terras baratas e férteis no interior de Mato Grosso, Schwantes promoveu a vinda de centenas de famílias pioneiras, a maioria vinda da região Sul do Brasil.

​Os primeiros anos foram marcados por desafios colossais. "Nos primeiros 15 dias, nós tomávamos banho no Rio Betis e fazíamos as necessidades no mato. Tinha época que até a coragem parecia sumir", relata, emocionado, o produtor rural Darci Tosatti. Outros pioneiros relembram a precordiedade das estradas de terra — repletas de buracos, lama e poeira vermelha — e a distância severa de qualquer infraestrutura de saúde ou educação. Em determinado momento, a cooperativa colonizadora faliu, deixando a jovem comunidade à própria sorte. Em vez de desistirem, os moradores se uniram, criaram uma comissão de emancipação e conquistaram a independência do município.

​A Identidade Gaúcha no Coração do Centro-Oeste

​A forte influência dos migrantes sulistas moldou não apenas a economia, mas a alma cultural de Querência. O chimarrão divide espaço com o calor do Centro-Oeste, e o Centro de Tradições Gaúchas (CTG) local, adornado por um monumento gigante em formato de cuia, é o símbolo vivo desse orgulho.
​O nome da cidade, inclusive, carrega esse significado profundo. "Querência é o lugar da casa, o lugar onde a gente mora e cria raízes. Os gaúchos vieram para cá e disseram: 'agora aqui é a nossa querência'", pontua Frizzo.

​Hoje, as cicatrizes do passado deram lugar ao orgulho e à prosperidade. O sentimento entre os pioneiros que viram a mata dar lugar ao progresso é de profunda realização. Eles fincaram suas vidas no coração do Cerrado com a certeza de que ali era possível plantar a esperança — e colher um futuro brilhante para as próximas gerações.

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